Lembro-me de uma linda manhã de sol, em que os campos floridos ondulavam com a brisa fresca. Eu devia ter uns quatro anos de idade e minha mãe me ensinava como caminhar na trilha de terra evitando pisar sobre as folhas secas para não ferir alguma serpente que estivesse dormindo e não percebesse nossa aproximação, dizia ela. Segundo minha mãe, a serpente não era má e não me morderia por mal e sim por medo de mim, que era um animal muito maior do que ela.
Mamãe me ensinava também a perceber o ruído particular que cada animal, ave ou inseto fazia ao se deslocar ou ao espreitar. De fato, depois que passei a prestar atenção, podia perfeitamente separar o ruído do vento na vegetação, do chamado de um inseto quase imperceptível, e do leve bater de asas de uma ave de rapina voando baixo para caçar um roedor desavisado. Um dia ela me disse:
– Shhh! Ouça.
Mas não ouvi nada. Então, ela apontou com o dedo médio, como era costume entre nosso povo. Olhei e nada vi. Mas comecei a perceber um leve ruído como se fosse uma lixa passando de leve sobre o chão arenoso.
– Não se mova para não assustá-la!
Em poucos instantes, vimos uma majestosa naja amarronzada de uns dois metros de comprimento saindo de trás do capinzal. Por tudo o que minha mãe me ensinou, posso dizer que lhe devo a vida várias vezes.
Passávamos a manhã inteira brincando de furar o solo de terra fofa com o dedo polegar e jogando dentro do orifício umas sementinhas. Depois, passávamos algumas semanas brincando de colocar água e esterco de vaca em torno de cada local plantado. Também devíamos conversar e rir bastante ali por perto. Mamãe dizia que se a sementinha ouvisse nossa conversa e nossos risos ela iria pôr a cabecinha de fora para ver o que se passava. Então, ficávamos dias a fio conversando e contando casos engraçados, esperando ansiosamente que a semente pusesse a cabeça para fora da terra.
Minha mãe tinha razão. Dali a alguns dias, vi, com uma alegria impossível de descrever, o primeiro broto saindo para o sol. E depois outro, e outro.
– Agora – disse-me ela – devemos mostrar às plantinhas que o mundo aqui fora vale a pena. Vamos ficar sempre felizes uns com os outros que é para as plantinhas não voltarem lá para dentro. Também devemos cuidar delas porque, coitadinhas, não podem se deslocar como nós para ir beber água quando tiverem sede, nem para fugir quando alguém for pisar nelas.
Colocamos proteções de bambu à sua volta e todas as manhãs lhes dávamos água, porque era verão e o calor estava muito forte. Havia uns dias em que precisávamos protegê-las do sol e cobríamos uma grande área com um tecido quase transparente e já meio velho, mas que era mantido imaculadamente limpo. Nunca perguntei por que esse tecido era lavado, se ia ficar exposto ao sol e ao vento que, às vezes, levantava nuvens de poeira vermelhenta. Mas, incansavelmente, as mulheres da aldeia, lavavam os metros e metros de tecido, sempre cantando e dando risadas das coisas mais simples.
Certa vez foi por causa de uma rã que saltou para dentro da cesta de vime. Uma das mulheres comentou que a rã estava querendo acasalar e, por esse motivo absolutamente ingênuo, as mulheres deixaram-se rir até o entardecer.





terça-feira, 24 de março de 2009 às 2:04
Pôxa, como eu amei ler esse livro, vou iniciar a releitura imediatamente, com certeza terei novas perspectivas.
Beijinhos de boa noite.
terça-feira, 24 de março de 2009 às 3:14
Ahhhhhhhh…!!! Esse livro é meu xodó! Inspiração de uma beleza irretocável… Já fiz umas duas releituras. Ultimamente, tenho pensado nele quase todos os dias. É um carinho em nossas existências poder saborear cada instante dessa jóia rara. Uma delícia!
Beijão, Mestre!
terça-feira, 24 de março de 2009 às 7:35
leticiaziebell.blogspot.com
Esse é o meu livro preferido! Adoro cada um dos seus capítulos
Um beijinho;
terça-feira, 24 de março de 2009 às 7:43
photosbyexinha.wordpress.com
Gostei muito de ler este livro!
Beijinho
terça-feira, 24 de março de 2009 às 8:33
Como é bonito esse texto Mestre!
Agora fiquei lembrando dos meus tempos em que fui escoteira, que tempos tão bons…passávamos os dias a ouvir e a observar a mãe natureza, as flores, os insectos, as pegadas dos animais…
Lembro-me uma vez em que estava com meus colegas fazendo um jogo, escondida e deitada sobre um campo cheio de flores, tão quietinha que até um coelho pulou por cima de mim
A natureza é tão preciosa, às vezes nos preocupamos com coisas tão insignificantes e não valorizamos o facto de podermos ouvir o cantar dos passarinhos, a brisa do vento, as ondas do mar…
“(…)Olhem para o lado brilhante das coisas, ao invés do lado sombrio delas. Contudo, a melhor maneira de obter felicidade é proporcionar felicidade à outras pessoas. Tentem deixar este mundo um pouco melhor do que o encontraram e, quando chegar a vez de morrerem, possam morrer felizes com o sentimento de que, pelo menos, não desperdiçaram o tempo, mas sim fizeram o melhor que puderam. Estejam preparados, desta maneira, para viverem e morrerem felizes, sempre fiéis à Promessa Escoteira de vocês, até mesmo depois que deixarem de ser jovens (…) Vosso amigo, Baden-Powell.” (Carta de Despedida do Fundador Mundial do Escotismo 1857-1941)
Beijocas Algarvias
terça-feira, 24 de março de 2009 às 9:33
quem disse que a vida tem de ser complicada….
terça-feira, 24 de março de 2009 às 9:52
Ahh o bom deste livro é que a cada leitura parece que é a primeira vez.
Outra coisa que me chama a atenção é como parece ser um roteiro cinematográfico.
Dá para imaginar como seriam os cenários, os atores, além da mensagem que é valiosíssima.
Mestre os seus livros mudaram minha vida mas posso dizer que este em especial é um dos mais marcantes.
Um grande abraço com muito carinho.
terça-feira, 24 de março de 2009 às 10:41
yoga-go.com.br
Quando os alunos me perguntam sobre a civilização dravídica e o comportamento tântrico, não tenho dúvidas: a indicação do livro Eu me lembro… é imediata.
Me emociono a cada nova releitura.
terça-feira, 24 de março de 2009 às 11:18
byheberson.fr
Sempre me emociono quando releio este livro
bjs
Fernanda Neis Reply:
março 25th, 2009 at 3:14
Saudades de você queridooooo
Beijocas
terça-feira, 24 de março de 2009 às 11:46
Eu também me lembro…
5.000 anos depois nos reencontramos.
Sempre me emociono com a leitura desse livro. Dedico toda a minha vida para reconstruir essa civilização. Vamos reencontrar essas pessoas em todas as partes do mundo.
Conte sempre comigo e com os meus monitorados.
Domingo estarei aí em Sampa.
Beijos, com amor.
Marisol
Amélia Caldas Reply:
março 25th, 2009 at 16:05
Eu tambem me lembro minha querida e tambem dedico minha vida para q tudo isso seja reconstruido.
Beijão
terça-feira, 24 de março de 2009 às 11:54
sorrieomundosorrictg.blogspot.com
Se não é um dos livros mais bonitos que eu li, não sei qual é… Quando o Tomás souber ler, vai ser dos primeiros que lhe vou passar para a mão. Talvez comece a ler-lhe hoje antes de ele adormecer! bjinhos mto grandes
terça-feira, 24 de março de 2009 às 12:04
Mestre, bom dia!
Muito obrigada por alegrar a minha manhã com a leitura, mais uma vez prazerosa, deste capítulo! Ontem à noite, comentávamos na Jardins como a leitura deste livro é gostosa e inspiradora. Particularmente, adorei ler hoje para reforçar como é gostoso cuidarmos bem, com amor e respeito, das pessoas e dos animais que nos cercam. A sabedoria para utilizarmos da melhor forma o poder que possuímos é a conquista de uma vida de integração e alegria!
Grande beijo e um pújá que nem cabe no meu coração. Tudo de melhor para você, Mestre!
Beijo. Melissa
terça-feira, 24 de março de 2009 às 12:27
yogapress.net
Este livro é muito lindo.
Me identifiquei de tal forma com ele que comecei a ler e não parei mais até acabar. Voltei ao tempo e vivi o romance, como se estivesse lá também.
Beijinhos,
Mazinha
terça-feira, 24 de março de 2009 às 13:03
yogajardimanaliafranco.com.br
Um dos livros mais lindos que já li!
Ao final, uma sensação muito gostosa e lágrimas emocionadas. Vou recomeçar essa leitura também.
beijos com saudades
terça-feira, 24 de março de 2009 às 13:12
consuelochear.com
Amado Mestre! Obrigada por alegrar meus dias com matérias tão enriquecedoras. Amo te ♥
terça-feira, 24 de março de 2009 às 14:49
“Eu me lembro…”
A natureza das coisas transmitida de uma maneira tão simples, faz-nos sentir e admirar a sensibilidade com que o livro foi escrito, tornando aquele relato poético tão bonito.
Um forte abraço
terça-feira, 24 de março de 2009 às 17:23
yogarivegauche.fr
Je suis toujours émue en lisant ce livre…
.
un vrai trésor pour qui a la chance de le comprendre.
J’avais envie de te parler maintenant de te faire un bisous et de te prendre dans mes bras
En portugais cela s’appelle Saudade et aucune autre langue a un mot pour décrire se sentiment !
Je t’embrasse
Sonia
terça-feira, 24 de março de 2009 às 17:28
Cada vez que leo este capítulo, me sumerjo en un sueño profundo y miro todo con claridad, me encanta, hasta siento el calor y el viento, a veces pienso que soy aquel niño y se me van las lágrimas, es hermoso.
Gracias Maestro por haber viajado tan lejos y traernos ese recuerdo tan hermoso.
terça-feira, 24 de março de 2009 às 18:03
Eu sempre gostei de ler trechos nas aulas. Os meus alunos adoravam! Vou voltar a ler esses dias novamente e tornar disso um hábito que há muito tinha deixado.
Beijos
Anahí Reply:
março 24th, 2009 at 20:06
Ler nas aulas é ótimo. Faz me lembrar a quando era criança e me contavam historinhas antes de ir deitar… Acho um ótimo hábito, que teriamos que fazer e incentivar mais.
Beijinhos, Juca! Saudades da sua companhia!
Anahí
terça-feira, 24 de março de 2009 às 20:13
YogaKobrasol.com.br
Gosto muito desse livro!
quarta-feira, 25 de março de 2009 às 16:02
Meu querido, esse livro me faz voltar no tempo, e me deixa com muitas saudades dos momentos ingenuos que vivemos um dia…tão bom que pudessemos voltar no tempo, muitos capitulos fazem parte da minha voda.
Beijos carregado de muito amor.
quarta-feira, 25 de março de 2009 às 21:41
O texto é maravilhoso, nos remete ao que é realmente importante e ensina que o que é simples e natural é que nos faz verdadeiramente felizes.